Ian Curtis costurava letras do mais obscuro naked lunch a devaneios utópicos do admirável mundo novo. Bernar Summer estava aprendendo a tocar guitarra, Peter Hook marcava secamente o baixo enquanto Stephen Morris descompassava o andamento dos outros. Era Joy Division, um diamante raro na cena punk. O que me deixa feliz é que eles continuam fazendo história.
Cada pessoa tem seu estilo musical. Em algumas fluem maravilhosos arranjos de violinos sendo tecidos no ar com perfeita simetria, em outros o samba faz com que, quase sem querer, comecem a gingar nos primeiros compassos, já em minhas veias correm três acordes, uma linha de baixo galopante, guitarras cortantes e um vocal gutural, ou seja, punk rock.
Hoje, fazem 30 anos que o Clash lançou o álbum London Calling, em 14 de dezembro de 1979. Este foi o terceiro álbum de estúdio deles, uma bela mistura de punk, pop, rockAbilly, reggae, R&B.
A faixa título é um clássico inesquecível, mas vale muito a pena prestar atenção em “train in vain”, “clampdown”, “the guns of brixton”, “brand new cadillac” e “spanish bombs”.
Cenário: início dos ano 90.
Algumas bandas surgiram com o rótulo NEO PUNK [na verdade nos últimos suspiros dos 80]…
Bobagem…
Confundidos, na carona do Chemical Brother, veio o Prodigy, catalogados na cena eletrônica, mas estes sim PUNK!
Ao contrário das outras bandas [neo]punk, acrescentaram o experimentalismo eletrônico, foram além da guitarra tosca, o baixo pesado e pouco glamour na bateria (exceto Topper Headon), brindaram de fato a acidez punk e sua atitude.
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Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra –
Os poetas desceram do Olimpo.
Para os nossos antepassados
A poesia era um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.
Diferente de nossos antepassados
- E o digo com todo respeito… –
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói seu muro
Um construtor de portas e janelas.
Nós conversamos
Na linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.
Ademais, uma coisa:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torcida.
Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
- E o digo com muito respeito…-
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por esbanjarem o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agruparem palavras ao azar
Conforme a última moda em Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.
Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu abanado.
Propiciamos a mudança
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A cabeça de cabeça descoberta.
Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser assim:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.
Porém, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Refrataram e se dispersaram
Ao passarem pelo prisma do cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas
Não sei se foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
O que eu sei é o seguinte:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverendos poetas burgueses.
Devemos dizer as coisas como são:
Somente um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam de palavra e de peito
Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.
Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um fracasso
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia calcada
Na revolução da palavra
Em circunstâncias de poder fundar-se
Na revolução das idéias.
Poesia do círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão!”
Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.
Como vão assustá-lo com poesias?!
A situação é a seguinte:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem.
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia chega para todos.
Nada mais, companheiros
Nós condenamos
- E o digo com respeito…-
A poesia do pequeno deus
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro furioso.
Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração ardente
Somos pés-no-chão decididos…
Contra poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia de protesto social.
Os poetas desceram do Olimpo.
Visão 1ª- Indigência de mim:
Sou órfã de mim mesma.
Meu comportamento não é meu,
Não é de ninguém.
Mas é de todos.
Sou um ser genérico.
Visão 2ª- Errante no outro:
Sei que não sou daqui,
Este mundo me sufoca.
E o que me sufoca sou eu mesma,
Minhas possibilidades não são próprias
E minhas ações são responsabilidade com o outro.
Visão 3ª- Encontrando o lugar:
Tenho chão, quando entendo minhas faltas
E entendo minhas limitações.
Ter propriedade é ter liberdade.
Mas continuo a carregar minha pedra nas costas
Provavelmente será para sempre assim.
Rebelde, preocupado com o simples, busca uma nova linguagem que emerge do cotidiano, do coloquial, do povo.
Irônico, lúcido, agudo, sai do piso de mármore da estética para, descalço pisar no chão batido e calçadas da fala simples, dos cartazes, desconstruindo o formal.